Andragogia e aprendizagem de adultos: como estruturar o desenvolvimento nas organizações

Andragogia e aprendizagem de adultos: como estruturar o desenvolvimento nas organizações

A maior parte das ações de desenvolvimento nas empresas é direcionada a adultos. São profissionais que acumulam experiências, responsabilidades e repertórios que influenciam diretamente a forma como aprendem e interpretam novas informações.

Mesmo assim, muitas organizações ainda estruturam treinamentos com uma lógica excessivamente expositiva, centrada apenas na transmissão de conteúdo, sem considerar as características próprias da aprendizagem adulta. O resultado costuma ser baixo engajamento, retenção limitada e pouca aplicação prática no dia a dia.

Ao compreender como adultos aprendem, o RH amplia sua visão sobre desenvolvimento humano e passa a estruturar programas mais coerentes com a maturidade profissional, a experiência prévia e a necessidade de aplicabilidade imediata no contexto organizacional.

Neste guia básico, vamos entender o que é andragogia, como funciona a aprendizagem de adultos e por que esse conhecimento é essencial para tornar as estratégias de desenvolvimento mais eficazes nas organizações.

O que é andragogia?

A andragogia é o campo de estudo que trata da aprendizagem de adultos. O conceito foi amplamente difundido por Malcolm Knowles (1913–1997), educador norte-americano especializado em educação de adultos e considerado um dos principais responsáveis por consolidar essa teoria no século XX. A partir da década de 1960, Knowles sistematizou princípios que diferenciam a aprendizagem adulta da pedagogia tradicional.

Enquanto a pedagogia parte do pressuposto de maior dependência do educador, a andragogia reconhece que o adulto aprende de maneira distinta. Ele traz consigo experiências acumuladas, expectativas profissionais e senso crítico desenvolvido, o que exige abordagens mais participativas e contextualizadas.

No ambiente organizacional, isso significa que treinamentos não devem reproduzir modelos escolares tradicionais. Eles precisam dialogar com desafios reais da atuação profissional e promover reflexão, troca e aplicação prática.

Por que compreender a aprendizagem adulta é estratégico para o RH?

Quando o RH ignora os fundamentos da aprendizagem de adultos, surgem consequências previsíveis: treinamentos pouco atrativos, resistência a programas obrigatórios e dificuldade de transformar conteúdo em comportamento.

Por outro lado, quando os programas são estruturados com base na andragogia, aumentam as chances de engajamento, retenção do conhecimento e transferência efetiva para o trabalho. Isso impacta diretamente os resultados organizacionais e fortalece a credibilidade da área de Desenvolvimento Humano.

Compreender a aprendizagem adulta não é apenas uma escolha metodológica, mas uma decisão estratégica.

Princípios da aprendizagem de adultos

Segundo Malcolm Knowles, a aprendizagem adulta se apoia em fundamentos que explicam por que adultos não respondem bem a modelos tradicionais de ensino.

Um dos pontos centrais é a necessidade de entender o propósito do que está sendo aprendido. Adultos tendem a se engajar quando percebem relevância prática e conexão com sua realidade profissional. Sem essa clareza, o interesse diminui rapidamente.

Outro aspecto essencial é a valorização da autonomia. Diferente da criança, o adulto prefere participar ativamente do processo, contribuir com suas experiências e refletir sobre situações reais. Treinamentos excessivamente expositivos reduzem esse protagonismo.

A experiência prévia também exerce papel decisivo. Vivências acumuladas ao longo da carreira funcionam como base para novas interpretações e aprendizados. Programas eficazes utilizam essas experiências como ponto de partida, em vez de ignorá-las.

Além disso, a prontidão para aprender costuma estar ligada a desafios concretos da função. Quando o conteúdo dialoga com problemas reais do cotidiano profissional, a motivação aumenta significativamente.

Por fim, a aprendizagem adulta é fortemente influenciada por fatores internos, como desejo de crescimento, reconhecimento e realização profissional. Esses elementos costumam ser mais determinantes do que imposições externas.

Como aplicar a andragogia nas organizações?

Para que os princípios da aprendizagem adulta se tornem prática, o RH pode adotar estratégias como:
  • Trabalhar com estudos de caso reais da empresa;
  • Incentivar discussões baseadas em experiências dos participantes;
  • Propor atividades práticas seguidas de reflexão estruturada;
  • Estimular a resolução de problemas concretos;
  • Criar espaços de troca e construção coletiva de conhecimento.
Essas abordagens fortalecem a internalização do conteúdo e aumentam a probabilidade de mudança comportamental consistente.

O papel estratégico do RH

Ao compreender a andragogia, o RH passa a desenhar programas de desenvolvimento mais coerentes com o perfil dos profissionais adultos. Isso significa sair da lógica de eventos isolados e caminhar para experiências de aprendizagem mais contextualizadas, participativas e orientadas a resultados.

Esse reposicionamento fortalece o papel do RH como área estratégica, capaz de conectar desenvolvimento humano e desempenho organizacional.

Conclusão

Ignorar como adultos aprendem é um dos principais equívocos na estruturação de programas de desenvolvimento corporativo. A andragogia demonstra que autonomia, relevância e aplicação prática são elementos centrais para a aprendizagem efetiva.

Ao incorporar esses princípios, o RH constrói ações mais eficazes, aumenta o engajamento dos profissionais e amplia o impacto do desenvolvimento nos resultados do negócio.

Neste guia básico, você compreendeu como a aprendizagem de adultos se diferencia da pedagogia tradicional e por que a andragogia é fundamental para estruturar estratégias de desenvolvimento mais consistentes. 

No próximo artigo, vamos aprofundar a Aprendizagem experiencial no desenvolvimento profissional, entendendo como a prática e a reflexão estruturada impulsionam o crescimento dentro das organizações.

Referências

KNOWLES, Malcolm. The Adult Learner: A Neglected Species.
KNOWLES, Malcolm; HOLTON, Elwood; SWANSON, Richard. Aprendizagem de adultos: princípios e práticas.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia.
CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas