Aprendizagem experiencial no desenvolvimento profissional: como a prática impulsiona resultados nas organizações

Aprendizagem experiencial no desenvolvimento profissional: como a prática impulsiona resultados nas organizações

Grande parte do desenvolvimento profissional nas organizações acontece fora da sala de treinamento. Ele surge nas decisões difíceis, nos projetos desafiadores, nos erros analisados e nas experiências que exigem adaptação.

Mesmo assim, muitas empresas ainda concentram seus esforços apenas em cursos formais, deixando de explorar o potencial formativo das vivências do dia a dia. Quando isso acontece, o desenvolvimento tende a ser limitado e pouco conectado à realidade do trabalho.

Ao reconhecer que a experiência é uma das principais fontes de aprendizagem, o RH amplia sua compreensão sobre como as pessoas evoluem profissionalmente e passa a estruturar estratégias mais alinhadas à prática organizacional.

Neste guia básico, vamos entender o que é aprendizagem experiencial, como ela funciona no desenvolvimento profissional e por que essa abordagem é estratégica para o RH.

O que é aprendizagem experiencial?

A aprendizagem experiencial parte do princípio de que aprendemos por meio da experiência vivida e da reflexão sobre essa experiência. Não se trata apenas de executar tarefas, mas de analisar o que foi feito, compreender os resultados e ajustar comportamentos a partir disso.

O modelo foi amplamente sistematizado por David A. Kolb (1939–2024), psicólogo e teórico educacional norte-americano reconhecido por suas contribuições à teoria da aprendizagem experiencial. Kolb desenvolveu seus estudos a partir de influências de autores como John Dewey, Kurt Lewin e Jean Piaget, integrando ideias sobre experiência, reflexão e construção ativa do conhecimento.

Em 1984, publicou a obra Experiential Learning, referência internacional que consolidou o modelo do ciclo da aprendizagem experiencial e influenciou diretamente a literatura de educação corporativa e desenvolvimento profissional no Brasil. Segundo Kolb, aprender é um processo contínuo no qual a experiência concreta é transformada por meio da reflexão, gerando conceitos que posteriormente são testados novamente na prática.

Esse ciclo é composto por quatro etapas interligadas:

A experiência concreta é o ponto de partida. Trata-se da vivência prática de uma situação real, como liderar um projeto, resolver um conflito ou conduzir uma reunião estratégica. É o momento em que o profissional está diretamente envolvido na ação.

Em seguida vem a observação reflexiva, etapa em que a pessoa analisa o que aconteceu. Aqui surgem perguntas como: 
  • O que funcionou? 
  • O que poderia ter sido diferente? 
  • Quais fatores influenciaram o resultado? 
Essa reflexão é essencial para transformar a experiência em aprendizado consciente.

A terceira etapa é a conceituação abstrata, quando o profissional organiza mentalmente o que aprendeu, conectando a experiência a conceitos, princípios ou modelos teóricos. Nesse momento, a vivência deixa de ser apenas um evento isolado e passa a gerar compreensão estruturada.

Por fim, ocorre a experimentação ativa, que consiste em aplicar os novos entendimentos em situações futuras. O profissional testa abordagens diferentes, ajusta comportamentos e inicia um novo ciclo de aprendizagem.

Esse movimento contínuo demonstra que aprender não é apenas vivenciar, mas refletir, estruturar o conhecimento e aplicá-lo novamente de forma intencional.

Além disso, Kolb também contribuiu para a discussão sobre estilos de aprendizagem, ao defender que as pessoas tendem a desenvolver preferências por determinadas formas de aprender. Essa perspectiva dialoga diretamente com o desenvolvimento profissional nas organizações, que precisam considerar diferentes perfis e ritmos de aprendizagem.

Por que a aprendizagem experiencial é tão relevante nas organizações?

No ambiente corporativo, muitas competências profissionais se desenvolvem principalmente por meio de desafios reais. Projetos estratégicos, mudanças de função, liderança de equipes, negociação com clientes e gestão de conflitos são situações que ampliam repertório e maturidade.

Quando o RH reconhece essa dinâmica, passa a enxergar o desenvolvimento para além de treinamentos formais. A experiência prática deixa de ser algo incidental e passa a ser tratada como elemento estruturante da aprendizagem organizacional. A aprendizagem experiencial contribui especialmente para o fortalecimento de competências comportamentais, também conhecidas como soft skills, que são fundamentais para o desempenho profissional em contextos complexos e dinâmicos.

Entre elas, destacam-se:

Tomada de decisão;
Resolução de problemas;
Comunicação interpessoal;
Adaptabilidade;
Visão sistêmica.

Essas competências dificilmente são consolidadas apenas por meio de conteúdo teórico.

O papel da reflexão no desenvolvimento profissional

Um equívoco comum é acreditar que basta expor o profissional a situações desafiadoras para que ele se desenvolva. No entanto, sem reflexão orientada, a experiência pode se repetir sem gerar evolução.

A liderança e o RH têm papel fundamental nesse processo. Feedback estruturado, conversas de desenvolvimento e análise crítica de resultados ajudam o colaborador a transformar vivências em aprendizado real.

A reflexão permite identificar o que funcionou, o que pode ser aprimorado e quais competências foram mobilizadas. Esse movimento amplia a consciência profissional e fortalece o crescimento contínuo.

Como o RH pode aplicar a aprendizagem experiencial?

Para incorporar essa abordagem de forma estratégica, o RH pode:
  • Estruturar projetos desafiadores como oportunidades intencionais de desenvolvimento;
  • Implementar programas de rotação de funções;
  • Incentivar participação em equipes multidisciplinares;
  • Estimular mentorias internas;
  • Integrar feedback contínuo aos ciclos de gestão.
Essas práticas ajudam a transformar o cotidiano organizacional em um ambiente de aprendizagem estruturada.

Aprendizagem experiencial e estratégia organizacional

Quando alinhada à gestão por competências, a aprendizagem experiencial permite direcionar experiências de acordo com lacunas identificadas e objetivos estratégicos do negócio.

Assim, o desenvolvimento deixa de ser aleatório e passa a ser planejado, conectado às prioridades organizacionais e ao crescimento sustentável das pessoas.

Conclusão

A aprendizagem experiencial evidencia que o desenvolvimento profissional não acontece apenas em cursos ou treinamentos formais, mas principalmente nas experiências vividas no cotidiano organizacional.

Ao estruturar oportunidades práticas acompanhadas de reflexão e feedback, o RH fortalece a construção de competências relevantes e amplia o impacto do desenvolvimento humano nos resultados da empresa.

Neste guia básico, você compreendeu como a aprendizagem experiencial contribui para o crescimento profissional e por que a prática estruturada é um dos pilares do desenvolvimento nas organizações. No próximo artigo, vamos aprofundar o Modelo 70-20-10 aplicado ao RH, entendendo como equilibrar aprendizagem formal, social e experiencial de maneira estratégica.

Referências

KOLB, David A. Aprendizagem experiencial: a experiência como fonte de aprendizagem e desenvolvimento.
CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações.
DUTRA, Joel Souza. Competências: conceitos, métodos e experiências.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.